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  • Foto do escritorRubens Aguiar

Precisamos uns dos outros e isso precisa ser assumido além da obviedade.



Organizações precisam de seus colaboradores para funcionar e realizar seus negócios. Além da obviedade da constatação, precisamos discutir a natureza e as implicações dessa necessidade.


A divisão do trabalho consolidada na Revolução Industrial deu origem ao que eu chamo de “cadeia de necessidades intrincadas”. Um emaranhado de demandas encadeadas que estabelecem relações de dependência entre as áreas de uma organização, raramente concebidas sobre as bases da colaboração. Tais relações se sustentam apenas nas pequenas trocas de valor que acontecem quando algo é pedido por um e entregue por outro. Na prática, o que constitui essas relações é: “me entregue o que eu pedi, do jeto que eu pedi, que está tudo certo”. Será?


Quando se pensa em trabalho colaborativo, à primeira vista pode-se vislumbrar um grupo de pessoas trabalhando juntas por um resultado em comum. Entretanto, a colaboração excede sua etimologia e aponta para um fazer que inclui a dimensão criativa e singular do indivíduo na construção de um coletivo interdependente, não apenas em seu aspecto processual, mas, especialmente, na sua dimensão holística. Nesse sentido, colaborar é reunir as pontencialidades individuais – a força produtiva dos indivíduos é apenas uma delas; o olhar crítico e a criatividade são outras – numa amálgama capaz de ressignificar contextos e modificar realidades.


Colaborar pressupõe abraçar a alteridade, essa interdependência que se constitui na diferença e no contraste entre as pessoas. Não se trata de reunir mais braços, mas de convergir cérebros e corações a partir da riqueza de suas divergências. Precisar do outro, em toda a sua integridade, revela talvez a maior virtude de sermos humanos: o caráter relacional da nossa existência, fundado na essência amorosa de dar e receber.

 

“A aceitação do outro junto a nós na convivência é o fundamento biológico

do fenômeno social. Sem amor, sem aceitação do outro junto a nós

não há socialização, e sem esta não há humanidade”


Humberto Maturana

 

Colaboração pode ser promovida, mas precisa ser desejada. Convocar, reunir e delegar são apenas externalidades que ensejam algo mais profundo – o engajamento. Compartilhar um ideal, um propósito ou objetivo que se possa construir juntos talvez seja o vetor de engajamento mais alardeado nas organizações. Contudo, pode-se conseguir engajamento quando um líder ou membro de uma equipe inspira confiança, mesmo sem algo maior que os mobilize. Engajar, portanto, não é ação utilitária por si, apesar de ter grande utilidade. Trata-se, sobretudo, de uma adesão que implica em envolvimento e comprometimento que suplantam a mera participação em uma iniciativa ou a simples execução de tarefas. Ao diferenciar uma coisa de outra, separamos o joio do trigo, pois enquanto o primeiro não gera uma semente proveitosa, o segundo fornece o gérmem do que será transformado em alimento.


Equipes colaborativas precisam ser constantemente alimentadas para renovar seu engajamento e se sentirem relevantes e coautoras de qualquer transformação. Os alimentos da colaboração podem ser muitos. Destaco entre eles:

  • a horizontalidade e a confiança nas relações;

  • uma liderança inspiradora;

  • a liberdade para falar e um ambiente acolhedor para fazer isso com segurança;

  • a cocriação, em que a autoria tem menos menos valor do que a relevância daquilo que é gerado;

  • as práticas recorrentes que se materializam em ritos de colaboração.

Assim, a colaboração favorece o engajamento que, por sua vez, reforça a colaboração, criando um círculo virtuoso. Exige desprendimento de quem participa e coragem de quem a promove. E requer um interesse legítimo pelo outro, sem o qual qualquer iniciativa dessa natureza será mero confete. Você está preparado para isso?


* Ilustração de Stacy Milrany- Give Me Your Hand, mixed media on panel, 2020

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